Notícias

Esporte Natação

Entrevista

Miguel Valente: treinos, futuro do esporte e momentos marcantes da carreira

Do Curso Básico de Esportes do Minas para os Jogos Olímpicos. Essa é a trajetória do nadador Miguel Valente no esporte. O minastenista começou a nadar no Clube ainda criança, passou por todas as categorias de base até chegar ao alto rendimento e participar dos Jogos Rio 2016. Medalhista de prata nos Jogos Pan-americanos de Lima 2019 (800m livre), Miguel também é presença constante na seleção brasileira e um dos principais nadadores de fundo do Brasil. Na Entrevista da Semana, o nadador relembra grandes momentos da carreira, fala sobre o futuro do esporte e sobre a natação brasileira. Miguel Valente também conta como tem se dedicado aos treinos em casa para não perder o ritmo. O objetivo é estar pronto para voltar a treinar na piscina e buscar uma vaga nos Jogos de Tóquio.

Assessoria de Comunicação – Como tem sido a sua rotina nesse período de quarentena?

Miguel Valente – Tento ser o mais produtivo possível na quarentena, tento colocar atividades produtivas para não ficar só no celular e séries. O Minas tem dado treinos online e acaba que ocupa parte do dia, mas tenho procurado ler mais, coisa que eu não tinha muito costume, mas pretendo ter, pois acabamos adquirindo novos hábitos, e, se esses hábitos forem bons, é importante levar além da quarentena, além da pandemia. Também tenho feito ioga, que é uma coisa que eu gosto, não treinando tanto na piscina temos mais energia para fazer outras coisas.

Assessoria de Comunicação – Como acha que essa pandemia e seus desdobramentos podem influenciar no futuro do esporte mundial?

Miguel Valente – Acho que a questão da qualidade não vai alterar tanto, uma vez que quando todo mundo conseguir voltar a treinar, todo mundo vai poder fazer a periodização direitinho e vai atingir o mesmo nível em que estava antes. Acho que não vai alterar tanto os resultados dos próximos anos nessa questão não. Os atletas têm procurado se manter ativos e perder o mínimo possível, isso ajuda muito a manter a motivação também, que acho que é importante. Quando voltar, acredito que as pessoas estarão mais motivadas ainda para voltar ao patamar normal de performance em que estavam antes.

Assessoria de Comunicação – Você é o primeiro atleta do Minas que começou a carreira ainda no Curso Básico de Esportes do Clube, passou por todas as categorias de base, chegou ao alto rendimento e disputou os Jogos Olímpicos. O que destaca de mais importante ao longo de toda essa trajetória?

Miguel Valente – Acho que são duas coisas importantes. Uma é toda a infraestrutura, toda a qualidade do trabalho que é feito no Minas. Tem o acompanhamento na piscina, mas também tem acompanhamento fora da piscina com fisioterapeuta, preparador físico, psicólogo, tudo que um atleta precisa para se desenvolver. Também fora da piscina, acho importante o apoio dos pais, ter alguém que te incentive nas horas difíceis, porque tem hora que dá vontade de desistir. São nessas horas que a família faz muita diferença no caminho que a gente vai acabar seguindo.

Assessoria de Comunicação – A sua classificação para os Jogos Olímpicos Rio 2016 foi emocionante, todos os presentes no Parque Aquático Olímpico, no Rio de Janeiro, estavam na expectativa das últimas braçadas, contando cada segundo. Conte um pouco como foi viver aquele momento, saber que você estaria no maior evento esportivo do mundo.

Miguel Valente – Bom, ainda bem que deu tudo certo! Eu acho que natação tem que ser um espetáculo e eu fiz minha parte (risos), deixei todo mundo bem apreensivo. No finalzinho, eu estava bem perto, acho que peguei o índice por 33 centésimos e, em uma prova de 1.500m, isso é muito pouco. Mas eu sabia também que eu estava bem na prova, eu tinha nadado os 400m livre no primeiro dia da competição e tinha feito um tempo muito bom, isso me deixou confiante para a prova dos 1.500m. Curiosamente, a organização decidiu testar um sistema novo que mostrava as parciais no fundo da piscina e eu não sei se isso ajudou ou atrapalhou, mas no começo da prova eu vi que estava muito bem, mesmo cansando um pouco mais para o final, fazendo as contas na cabeça, eu percebi que eu estava dentro da prova. Classificar é um momento de muito alívio, porque existe uma pressão muito forte e muito grande, que a gente mesmo coloca, e quando tudo dá certo, parece que você tira um peso dos ombros e meio que flutua, ainda mais que estava na água (risos), você se sente bem mais leve. É uma sensação muito boa.

Miguel Valente no Troféu Brasil-Maria Lenk 2019Miguel Valente no Troféu Brasil-Maria Lenk 2019

Assessoria de Comunicação – Todos os atletas estavam próximos de encerrar um ciclo olímpico quando tudo parou e os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados em um ano. Como você vê esse tempo a mais de treinos e preparação?

Miguel Valente – Foi muito difícil quando tudo parou, porque, pelo menos eu, e muitos atletas do Minas também, vínhamos em uma preparação muito boa. Tínhamos expectativa boa de resultados e de, possivelmente, classificar para os Jogos. Faltava um mês para a seletiva, era muito pouco, o treino estava começando a entrar no polimento, que é a parte que fica mais gostosinho de nadar, que diminui o volume, a gente não fica tão cansado mais. Mas, não podemos chorar sobre o leite derramado, é uma coisa que foge do nosso controle. Acho que com um ano a mais para treinar, mas que na verdade não vai ser um ano, porque até agora não voltamos direito, é procurar voltar para a forma e nível em que estávamos antes. Vai ser difícil, nunca fiquei tanto tempo sem nadar, mas, com motivação e com vontade, acaba que podemos conseguir. Depois de 20 anos fazendo a mesma coisa, já sabemos o caminho que temos que seguir e que pode dar bons resultados.

Assessoria de Comunicação – As suas principais provas são 800m e 1.500m livre. Como você vê o nível nacional e internacional dessas disputas?

Miguel Valente – Em nível nacional, o Minas tem uma equipe muito boa de fundo. Nas provas de 800m e 1.500m, quase todos os atletas “tops” do Brasil, que pegam pódio, costumam ser do Minas como eu, o Diogo, o Cachorrão (Guilherme Costa), o Kanieski, e tem os meninos mais novos também, Marcelo e Dudu, que vem dando continuidade a nossa tradição de bons fundistas do Clube. O nível nacional vem crescendo, o Cachorrão tem levado a natação brasileira para outro patamar. Acho que é muito motivador também ter alguém que está na sua frente, é ter alguém para mirar, querer bater na frente desse alguém. Então, o Cachorrão tem feito isso pela natação, levando a natação brasileira a ser mais forte também no nível mundial. Ele bateu recordes sul-americanos que colocam ele em uma expectativa de final olímpica, de, às vezes, brigar por uma medalha. Ele chegando lá, puxa todo mundo junto. Eu e Diogo também estamos crescendo, os recordes sul-americano e brasileiro têm baixado nos últimos anos, dando uma revivida no fundo do Brasil. Fico muito grato em poder fazer parte desse crescimento da natação brasileira.

Assessoria de Comunicação – No ano passado, você teve outra grande conquista representando o Brasil, que foi a medalha de prata nos Jogos Pan-americanos de Lima 2019. O que fazer para se manter em alto nível e estar sempre presente nas convocações da seleção brasileira?

Miguel Valente – Não tem segredo não, para se manter no alto nível é treinar forte. A seleção brasileira é baseada nos resultados, e o jeito de ter resultados é construindo todo dia. Eu sempre gostei muito de treinar e sempre renovamos os objetivos. Se não é para os Jogos Olímpicos, é Campeonato Mundial ou Jogos Pan-americanos, e a gente continua treinando. Ter uma equipe forte dentro do Minas também é muito bom, porque a gente se motiva. Saber que os adversários que a gente tem que bater na frente estão do nosso lado nos faz todo dia querer chegar na frente, acaba puxando o nível e fica bem forte. Isso ajuda no resultado final, que é classificar para a seleção brasileira.

Assessoria de Comunicação – Antes de ser fundista você chegou a nadar outras provas. Como foi a mudança para as provas de fundo? Quais dicas você deixa para quem está começando na natação?

Miguel Valente – Já nadei muita coisa, já nadei 200m peito, 400m medley, 200m medley, 200m costas e 400m livre. Os 400m medley até arrisco de vez em quando, ainda consigo fazer tempos bons devido à capacidade aeróbica que eu adquiri no fundo. A transição foi acontecendo, foi vendo que eu tinha mais aptidão, que gostava de treinar mais e não gostava de fazer treino curto. A dica que eu dou para quando se é mais jovem é “nade de tudo”. Quando você é novo, você pode achar que se conhece, mas acaba que não conhece.  Eu nadava 200m peito, é uma diferença muito grande para 1.500m livre, mas, se eu não tivesse me arriscado por todas essas áreas, acho que não encontraria a que eu sou melhor. Às vezes, a pessoa pode achar que está na sua melhor prova, quando na verdade ela poderia nadar outra prova melhor ainda. Não tenha preconceitos, não fuja do trabalho pesado, que, quando você for mais velho, você vai se destacar em uma prova e vai seguir. Limitar a si mesmo é limitar as possibilidades que você pode ser bom.

Assessoria de Comunicação – A sua mãe, Helga, te acompanha em praticamente todas as competições e já é figura conhecida nas arquibancadas. O seu irmão, Pedro, também é atleta da equipe de ponta do Minas. Qual a importância do apoio dos familiares e de ter ao seu lado pessoas que entendem o seu dia a dia como atleta?

Miguel Valente – Sou conhecido como o “filho da Helga”. Ela tem um papel bem importante na nossa trajetória, ela ajuda bastante, acaba que ela é a nossa nutricionista, às vezes nossa psicóloga, incentivadora. É até engraçado, esses dias mesmo ela fez uma comida que ela aprendeu no Peru, quando foi ao sul-americano, então tem muito lado bom também dela viajar para as competições. Acho que sem o apoio da família a gente não consegue chegar até onde queremos, tem que ter alguém que entenda e que apoie, pois tudo fica mais fácil. Por exemplo, se eu tivesse que fazer comida balanceada todo dia para mim seria um pouco mais desgastante, ter alguém que me entenda e que faça isso por mim ajuda bastante. Uma pessoa que entende também que eu preciso dormir de tarde, que eu durmo cedo, é muito bom. Não dá para explicar, só quem é atleta sabe que ter uma pessoa que entende a sua rotina ajuda bastante.

Miguel Valente, ao lado do técnico Sérgio Marques, com a medalha de prata conquistada no Pan de LimaMiguel Valente, ao lado do técnico Sérgio Marques, com a medalha de prata conquistada no Pan de Lima

De bate-pronto...

Um ídolo no esporte?
Miguel Valente – Fernando Scheffer.

Uma prova inesquecível?
Miguel Valente – Os 800m livre no Troféu Brasil-Maria Lenk 2019, em que classifiquei para o Pan.

Se não fosse nadador. O que seria?
Miguel Valente – Cozinheiro.

Palmar ou pé de pato?
Miguel Valente – Palmar (com boia).

Lugar preferido?
Miguel Valente – Rio de Janeiro.

Comida preferida?
Miguel Valente – Frango com quiabo.

Siga as redes sociais oficiais da Natação do Minas:
Facebook: /mtcnatacao
Instagram: @mtcnatacao 


Esse site armaneza dados (como cookies), o que permite que determinadas funcionalidades (como análises e personalização) funcionem apropriadamente. Clique aqui e saiba mais!