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Equilíbrio corpo e mente

Em tempos de pandemia, o neurocirurgião Leonardo Gomes de Carvalho dá dicas para manter a saúde integral

O Brasil, antes da pandemia, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), era o país mais ansioso do mundo e, também, apresentava a maior incidência de depressão da América Latina, com 12 milhões de pessoas doentes.  Estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) aponta que houve aumento de 90% dos casos de depressão, e o número de pessoas com crises de ansiedade e sintomas de estresse agudo dobrou, entre março e abril de 2020. Leonardo Gomes de Carvalho, neurocirurgião em Diamantina, percebeu que muitos dos seus pacientes estavam sentindo medo, angústia e tristeza, as chamadas doenças da alma. Preocupado com a saúde emocional de seus pacientes, ele começou a fazer vídeos curtos em seu perfil do instagram (@drleonardoneuro) com mensagens positivas e de estímulo ao autoconhecimento e à autoestima.

O neurocirurgião explica que as saúdes física, mental e emocional estão totalmente conectadas e é preciso manter o equilíbrio entre elas. O amor-próprio, o autoconhecimento são fundamentais para o equilíbrio e cuidando de um aspecto da saúde, automaticamente está se cuidando do todo. “Psicologicamente, a boa saúde física melhora nossa relação com nosso corpo, podendo facilitar até mesmo a redução de nossa preocupação com o que os outros pensam sobre nós e elevando nosso amor-próprio. Portanto, dentro de um equilíbrio saudável, o cuidado com a saúde física é um ótimo remédio antidepressivo e ansiolítico”, afirma.

Saiba mais na entrevista exclusiva, conceda pelo médico Leonardo Gomes de Carvalho para o site do Minas.

Como surgiu a ideia de fazer os vídeos?

Com a chegada da pandemia ao Brasil, os impactos na população foram imediatamente notados. Ficou evidente a necessidade de melhor orientação sobre uso de itens de proteção, tanto para os profissionais da saúde quanto para a população geral. Dessa forma, os primeiros vídeos foram mais técnicos, focados no uso de máscaras e do álcool 70%. Mas, ainda mais evidentes foram os impactos emocionais. Como neurocirurgião do interior de Minas, boa parte dos atendimentos ambulatoriais que realizo são consultas de neurologia clínica, e evidenciou-se que boa parte das demandas dos pacientes neurológicos, cirúrgicos ou clínicos, tem grande componente psíquico. Aliás, nesses 13 anos de atendimentos em Diamantina, ficou claro que, se a perspectiva emocional não for levada em consideração, nenhuma doença terá tratamento completo. Em meio a este cenário de fragilidade psíquica dominante, a Covid-19 veio como um potente catalisador de mal-estar. Cheguei a ficar poucos dias sem atender, com receio de trazer riscos para os pacientes, mas rapidamente percebi que, na verdade, os atendimentos poderiam reduzir riscos. A presença dos pacientes nesses locais de potencial concentração do vírus poderia ser evitada através da amenização de sintomas nas consultas, inclusive sintomas emocionais que simulam com muita precisão aqueles da infecção pelo coronavírus. Assim, a ideia dos vídeos ganhou corpo, como forma de disseminar nas redes sociais reflexões audiovisuais fundamentadas no bem-estar emocional.

Clique na foto e confira um dos vídeos do dr. Leonardo Gomes de Carvalho.

 

Dr. Leandro Gomes de Carvallho posta no seu perfil do instagram vídeos motivacionais.Dr. Leandro Gomes de Carvallho posta no seu perfil do instagram vídeos motivacionais.

 

Qual foi o retorno dos pacientes em relação aos vídeos?

Felizmente, o retorno dos pacientes foi e continua sendo muito positivo. Os vídeos tornaram-se uma extensão das conversas de consultório, ou um ponto de partida para análises individualizadas mais aprofundada das condições específicas de cada paciente. Mais do que isso, foi surpreendente seu efeito terapêutico, exposto em diversas manifestações de pessoas que se beneficiaram emocionalmente dos conteúdos, tanto presencialmente quanto nas redes sociais, com alcance inclusive internacional.

 

Quanto a saúde física interfere na saúde emocional?

Intensamente. Na verdade, não é possível analisá-las de forma inteiramente isolada. Segundo antigas tradições orientais, que têm sido cada vez mais assimiladas no ocidente, nós somos corpo, mente e espírito. Se o equilíbrio emocional só fosse possível quando o corpo não apresentasse nenhuma dificuldade, o bem-estar emocional seria um privilégio restrito. Muitos são os indivíduos que, de forma resiliente e exemplar, transbordam saúde emocional, apesar de apresentarem condições que comprometem a capacidade física, como dores graves ou as mais variadas deficiências. Isso não significa que são felizes o tempo todo. Apesar da relação entre boa condição física e boa aparência estética ser uma possiblidade frequente, é bom lembrar que todo excesso deve ser evitado. Trazendo para uma concepção mais harmoniosa de saúde física, são evidentes os benefícios para as nossas emoções de uma vida saudável, com a prática de atividades físicas seguras, sob a devida supervisão profissional especialmente se há doenças associadas. A sensação de bem-estar proporcionada pelo exercício físico é incontestável, bem como pela capacidade de se manter dentro de um peso saudável, com bons parâmetros clínicos e laboratoriais. E vice-versa.

 

O que é a somatização?  Como se pode combater esse fenômeno?

A somatização é uma condição psiquiátrica que ilustra muito bem a importância do tripé corpo, mente e espírito. “Soma” é uma palavra grega que remete a “corpo”. Somatização, portanto, é a manifestação, no corpo, de sintomas físicos reais, cuja origem não está no próprio corpo, mas em conflitos da mente e do espírito. Tais condições configuram grandes desafios, tanto para o médico quanto para o paciente e sua família, que exigem condutas particularmente humanizadas pelos profissionais da saúde, buscando compreender e respeitar uma das mais complexas perspectivas do sofrimento humano. A identificação da somatização exige experiência e sensibilidade profissional, difíceis de serem aprendidas. Estas características, somadas ao conceito médico de que as doenças mentais são diagnósticos de exclusão, tende a levar não só ao desprezo estigmatizado do paciente, mas a um longo e frustrante percurso de acompanhamento médico.

 

Como a somatização pode ser tratada?

Apesar de a origem dos sintomas não ser física e, por isso, não haver alteração nos exames, é importante frisar que são sintomas reais. Ou seja, o paciente realmente sente o que está queixando. Isto diferencia a somatização de quadros de simulação, em que o paciente, para obter ganhos secundários, finge voluntariamente apresentar aquele sintoma. Práticas pessoais, centradas no autoconhecimento e na redução de fatores estressantes, podem ter algum efeito na amenização dos sintomas. Entretanto, na imensa maioria dos casos, a complexidade envolvida na somatização exige acompanhamento multidisciplinar, com profissionais capacitados da saúde mental.

 

O neurocirurgião Lenardo Gomes de Carvalho entende que as saúdes física e emocional devem ser cuidadas juntas. Foto: Arquivo pessoalas juO neurocirurgião Lenardo Gomes de Carvalho entende que as saúdes física e emocional devem ser cuidadas juntas. Foto: Arquivo pessoalas ju

 

A religião pode ajudar a manter a saúde emocional? Por quê?

Tudo o que fizer bem, sem trazer consequências negativas para si mesmo ou para o outro, vale a pena ser feito. As práticas religiosas são formas de buscar conforto, bem como um alento para a angústia gerada pelo sofrimento, ou pelas ocorrências que não podem ser explicadas pela ciência. A dúvida gera instabilidade emocional, e explicá-la como parte de um contexto místico é confortante. Numa sociedade que se distingue pela desigualdade e pela competição, em que o adoecimento psíquico é quase uma regra, todo alívio é válido. Além disso, o poder da palavra é bastante conhecido, destacando-se como a base da psicoterapia e dos cultos religiosos. Em minha opinião, dois dos verbos mais difíceis da língua portuguesa são “agradecer” e “perdoar”, cuja prática é bastante terapêutica. De forma geral, as religiões favorecem essa prática. Como fomento da saúde espiritual, mesmo sem a devoção praticante a uma religião ou a entidades religiosas específicas, a fé pode incluir-se no ciclo virtuoso da saúde emocional e, assim, contribuir também com a saúde do corpo.

 

Em momentos como de isolamento social como este, imposto pela pandemia, como manter a saúde emocional, já que somos seres socias?

Este é o grande desafio emocional das gerações humanas que vivem no planeta neste momento, e um dos grandes motivadores do projeto com os vídeos. Encontros virtuais, como as videoconferências, costumam abrandar, mas podem não resolver o problema. Situações que fogem ao nosso controle, especialmente em dimensões tão amplas quanto uma pandemia viral que ameaça literalmente todo o mundo, inevitavelmente irão causar reações emocionais ruins. O primeiro passo é aceitar e enfrentar essas reações, reconhecendo nosso caráter imperfeito, mas ativo. Além disso, é importante não esquecermos de que tudo isso vai passar. Essa não é a primeira pandemia vivenciada pela humanidade, e, como todas as outras, essa também não vai durar para sempre. Mas, caso se perceba que a saúde emocional saiu completamente do controle, com uma tristeza desproporcional ou uma ansiedade paralisante, o acompanhamento profissional torna-se fundamental.

 

O senhor percebeu um aumento de casos de doenças ligadas à saúde emocional durante a pandemia?

Esse é um ponto interessante. Sem dúvida, especialmente em relação à ansiedade, foi evidente tanto o aumento de casos novos, quanto a descompensação de casos antigos. Indivíduos dos chamados “grupos de risco” viram-se especialmente ameaçados, elevando a angústia nesses grupos. Contudo, é importante ressaltar o intenso impacto num grupo especificamente vulnerável: as crianças. Desde o início da pandemia, e, em muitos lugares, até o presente momento, as crianças se viram encarceradas, frequentemente em ambientes bastante reduzidos, distantes dos parentes e amigos, com uma grande dificuldade de interpretar o contexto, por sua imaturidade cognitiva. As telas dos recursos tecnológicos, como celulares, computadores, tablets e televisores, tão necessariamente criticadas anteriormente, tornaram-se método pedagógico e, em muitos casos, o único entretenimento. Além do mais, a maior parte dos pais não fica o dia todo em casa, ou até ficam em casa, mas com atividades em home office, de forma geral classificadas como mais intensas do que antes da pandemia. Assim, quando os filhos acham que terão a companhia dos pais, encontram pessoas cansadas, estressadas e sem paciência, alimentando um adoecimento psíquico infantil cruel. Ser adulto na pandemia, com certeza, não está sendo nada fácil. Mas, ser criança parece estar ainda mais difícil.

 

Quais dicas o senhor pode dar para manter a saúde física e emocional?

Dar dicas nunca é uma tarefa simples, pois elas tendem a uma simplificação perigosa, fazendo crer que qualquer pessoa que seguir aquele conselho terá bons resultados, enquanto o efeito de nossos atos depende sempre de questões individuais. Partindo dessa premissa, uma primeira sugestão para o momento é reforçar a busca pelo autoconhecimento. A filosofia ocidental iniciou-se com o aforismo grego “conhece a ti mesmo”, e o isolamento compulsório é um bom ambiente para esse tipo de reflexão. Várias outras reflexões foram propostas nas respostas anteriores, que poderiam ser sintetizadas e complementadas como: proteger a si mesmo e aos outros; aceitar algum sofrimento emocional causado pela complexidade do momento atual; criar rotinas de sono, alimentação, atividade física e exposição ao sol; beber água; evitar as más notícias; tentar não sofrer por antecipação; buscar relações saudáveis; preferir fontes profissionais confiáveis de informações científicas; apreciar o belo; ler bons livros; ouvir boa música; respirar, meditar, ajudar e amar. Sempre enfatizando a necessidade de busca por ajuda profissional, caso o impacto das emoções fugir ao controle. E sempre lembrando que, apesar de todas as dificuldades do momento, tudo isso vai passar.


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