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Querido desconhecido

No Letra em cena on-line, obra de Campos de Carvalho é analisada por Luiz Ruffato

O romancista Campos de Carvalho (1916 – 1998) foi o tema da última sessão do “Letra em cena on-line”, transmitida na noite dessa terça-feira (13/10), pelo canal oficial do Minas Tênis Clube no Youtube. O escritor Luiz Ruffato falou sobre a obra singular do escritor de Uberaba (MG) que publicou apenas seis livros e é considerado, por alguns especialistas, o representante do surrealismo no país. A live, que soma cerca de 300 visualizações, teve a leitura de um trecho do livro “A Chuva imóvel”, de 1963, feita pelo ator Glicério do Rosário.

 

“Campos de Carvalho é diferente dos outros escritores. Ele é um dos mais desconhecidos e conhecidos autores do Brasil. Ele não tem muitos fãs, mas os que o amam formam uma seita”. Essa foi a primeira observação feita por Luiz Ruffato durante a live “Fiquei confuso quando li o livro ‘A Chuva imóvel’. A minha publicação faz parte de uma coleção de autores brasileiros contemporâneos, que era vendida na banca de jornal, nos anos 1970. A obra dele era completamente diferente das dos outros autores. Fiquei muito impactado”, diz Ruffato.

O palestrante explica o efeito causado pela obra de Campos de Carvalho, no público e na crítica, analisando as publicações contemporâneas às dele. “O romance ‘A lua vem da Ásia’ foi publicado em 1956. No mesmo ano, saiu ‘Grande sertão: veredas’, de Guimarães Rosa, ‘Encontro marcado’, de Fernando Sabino, ‘Vila dos Confins’, de Mário Palmério. Se você prestar atenção, não tinha nada parecido com a proposta de Campos de Carvalho”, atesta Ruffato. “A única obra que dialoga com a sua é ‘O Alienista’, de Machado de Assis. Acho que Campos de Carvalho deve ter lido muito esse livro”, observa.

Ruffato não concorda com o rótulo colocado em Campos de Carvalho de ser o primeiro autor surrealista do Brasil. “Antes dele, outro escritor, esse sim surrealista, o Rosário Fusco (1910 – 1977), tinha publicado o livro ‘O Agressor’, em 1943, que conta inclusive com um ensaio bastante lúcido de Antonio Candido (1918 – 2017)”, lembra. O palestrante entende que Campos de Carvalho era um adepto de outra forma de escrita. “Na página 137 do romance ‘Tribo’ [lançado em 1954], ele se diz surrealista. Mas eu nunca acredito nos autores, são todos mentirosos. Ele era adepto, no meu ponto de vista, da arte bruta, que é a arte dos hospícios, que ele tenta emular nos livros”, destaca Ruffato.

Outra observação sobre a obra de Campos de Carvalho feita por Ruffato é a sua adequação ao tempo. “O que mais me toca na literatura dele é o fato de falar do tempo em que vivemos, e é por isso que a sua obra deve ser lida. Ela é contemporânea”, explica o palestrante, lembrando que, em “O púcaro búlgaro”, de 1964, Campos de Carvalho foi visionário. “Para quem gosta de teoria da conspiração e de ver coincidências nas coisas, ele fez uma profecia, quando disse que, no século XXI, o mundo já não teria mais sentido. Ele acertou!”, diverte-se o palestrante.

Luiz Ruffato advertiu o público sobre o que se encontra na obra de Campos de Carvalho: o texto do escritor é profundamente triste e vestido com certo humor. “Se o leitor quer ter alento nos livros de Campos de Carvalho, não vai encontrar. A obra dele, que tem como proposta a ausência da lógica, é do desespero, da solidão, da opressão, da guerra e da impossibilidade da concretude do amor”, ressalta.

 

Sérgio Sant’anna é o próximo focalizado do “Letra em Cena on-line”

A obra do escritor Sérgio Sant’anna (1941 – 2020) será o tema da próxima sessão do “Letra em Cena on-line”, no dia 27 de outubro, terça-feira, às 20h. A palestrante convidada é a diretora e atriz Bia Lessa. A transmissão será pelo canal oficial do Minas Tênis Cube no Youtube (youtube.com.br/minastcoficial).

Para saber informações e novidades sobre o programa literário do Minas Tênis Clube, faça sua inscrição no site da Sympla.

 


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