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Letra em Cena on-line

Confira como foi a entrevista em que Mia Couto fala sobre a obra de José Saramago

A primeira sessão da temporada 2021 do programa literário do Minas Tênis Clube, o “Letra em Cena. Como ler...”, que desde 2020 se apresenta no formato on-line, trouxe para o público, na última terça-feira (9/3), a análise da obra do escritor português José Saramago (1922 – 2010), vencedor do Prêmio Nobel em 1998,  pelo autor moçambicano Mia Couto. Exibida no canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube, a entrevista com o curador do Letra em Cena on-line, José Eduardo Gonçalves, conta com mais de três mil visualizações. O ator mineiro Odilon Esteves fez a leitura de poemas dos dois autores. Veja aqui. 

 

 

Mia Couto conheceu a obra de Saramago por meio de seu pai. “Eu não visitava Portugal e os livros dele não chegavam em Moçambique. Mas o meu pai, uma pessoa de esquerda e que tinha ligações com movimentos políticos em Portugal, trouxe para casa um livro de crônicas do Saramago, publicado já no final da ditadura”, lembra o escritor moçambicano, que ganhou, em 2013, o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, instituído em 1989 pelos governos do Brasil e de Portugal.  José Saramago recebeu o prêmio em 1995.

Segundo Mia Couto, a mudança na forma de escrita de Saramago pode ser vista a partir do livro “Levantado do chão”, de 1980. “O curioso é que já começa a ter ali [em Levantado do chão] uma necessidade de levantar voo e partir para um outro tipo de formato. Até então era uma coisa muito neorrealista, muito daquilo dos escritores comunistas portugueses”, explica o entrevistado. “Uma parte de sua obra é feita antes desse estilo que o consagrou [texto sem pontuação]. Ele tinha dimensões claras, a busca da história e de outras versões, e a busca da coisa mais interior, da dimensão humana, quase religiosa”, analisa o escritor.

“Eu disse para ele uma vez que nunca vi um ateu tão religioso, e disse também que nunca vi um comunista tão pessimista. Porque, em princípio, o comunista é uma pessoa que tem esperança num mundo novo”, reflete Mia. “Mas Saramago era amargo. Ao longo do tempo, ele foi ganhando certo desespero de que a condição humana sobre a qual ele vinha refletindo não tem remédio. É um pouco isso, a humanidade não tem muito saída, porque, por essência, a espécie humana não é boa”, analisa o moçambicano.

A obra de José Saramago preferida por Mia Couto é “Ensaio sobre a cegueira”, de 1995. “É um livro atual para o que estamos a viver hoje. Esse clima em que deixamos de ver uns aos outros era um assunto que o perseguia. De que há uma cegueira, em que só vemos a projeção daquilo que querem nos mostrar. ‘Ensaio sobre a cegueira’ é um livro sobre a ética humana”, afirma Mia Couto, revelando que, a princípio, não acreditou na possibilidade da adaptação fiel da obra para o cinema, que foi feita pelo brasileiro Fernando Meireles, em 2008, e que emocionou Saramago. “Eu tive resistência sobre a adaptação. Não acreditava que fosse possível fazer um filme que respeitasse o livro. E está ali o espirito do livro”, releva. 

 

 

Mia Couto observa que sua literatura se assemelha à de Saramago. “Nós partimos do mesmo ponto, a busca pelo que foi invisibilizado, e no fundo não é uma coisa só literária, é uma postura humana. Saramago tem uma maneira de fazer o discurso direto e indireto. Há um trabalho dissimulado que, de repente, não se sabe exatamente quem está a falar, e eu gosto disso”, afirma o entrevistado, reconhecendo a importância de Saramago em sua carreira como escritor, mas destacando a influência de vários autores brasileiros. “Ele (Saramago) foi um sedutor, me fez pensar e me encantou, mas não foi o meu mestre. Fui buscar os brasileiros como Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, algumas coisas do Drummond e, para mim, Hilda Hilst é muito importante”, explica Mia Couto.

 

Um homem bom

“Ele não me conhecia quando fui fazer o lançamento do meu livro de contos em Portugal, em 1987. Achei que ninguém iria. E, de repente, chega o José Saramago. Ele se dirigiu a mim e perguntou se eu o autorizava a apresentar o meu livro. Para mim aquilo era uma benção”, lembra o autor moçambicano.

“Ninguém me conhecia e na hora dos autógrafos, as pessoas se dirigiam ao Saramago e não a mim para pedir a assinatura no livro. Ele foi até o microfone e disse: ‘a festa é do Mia Couto, eu não dou autógrafos na festa de outra pessoa’”, conta Mia Couto.

 

Letra em Cena on-line

A próxima sessão do programa literário será no dia 13 de abril, terça-feira, às 20h. A obra de João Ubaldo Ribeiro será analisada por Cacá Diegues, no canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube.

 

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