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Poeira de estrelas

Ailton Krenak encerra a temporada 2020 do Letra em Cena on-line

A última sessão da temporada 2020 do Letra em Cena on-line foi dedicada à literatura indígena. O ambientalista, escritor e líder indígena mineiro Ailton Krenak conversou, na noite dessa terça-feira (15/12), pelo canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube, com José Eduardo Gonçalves, curador do programa literário do Minas Tênis Clube.  A leitura de trecho do livro “A queda do céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, foi feita pelo ator Glicério do Rosário e a sessão contou com a participação, em vídeo, do também ator Odilon Esteves, declamando o poema “O homem; as viagens”, de Carlos Drummond de Andrade. Da aldeia Krenak, no Médio Rio Doce, o escritor falou sobre a riqueza da cultura indígena e a importância de saber sobre os povos originários para o entendimento da cultura nacional. A entrevista pode ser vista aqui.

 

 

O nome do mais recente livro de Krenak, é uma frase intrigante e que leva à reflexão. “A vida não é útil” apresenta para o leitor uma afirmação perturbadora, sobre a qual o jornalista José Eduardo Gonçalves questionou o autor. “Quando disse que a vida não é útil, eu estava querendo fazer as pessoas refletirem sobre o que elas estavam querendo fazer com as próprias vidas. A partir dessa fragilidade do mundo que estamos vivendo, por causa da Covid-19, confinado aqui na aldeia, fiz comunicação com diferentes lugares sobre essa experiência de suspensão do mundo inteiro. E a partir da experiência local, fui um observador privilegiado da confusão que está acontecendo, com pessoas morrendo aos montões. Eu vi retroescavadeiras enterrando corpos em Manaus como se a gente estivesse no fim de mundo. Parece uma catástrofe, e é mesmo. E as pessoas fazendo conta! Eu achei que a gente estava vivendo uma espécie de exagero em relação à ideia do mundo do trabalho e a utilidade do tempo, aquela ideia de ‘tempo é dinheiro’. No século XX, instituiu-se uma cultura global, e as pessoas estão envoltas nessa estrutura apavorante, em que a vida deixou de ser um dom maravilhoso e passou a ser medida pelo sucesso”, explicou Krenak.

O escritor teve os primeiros contatos com a língua portuguesa na adolescência, por volta dos 17 anos, e entende que essa é a sua língua mãe. “Eu fui convidado para gravar um depoimento para o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Eles me questionaram sobre em que língua eu penso para escrever. A expressão da língua materna é limitada ao ambiente doméstico, que é onde a gente se relaciona com quem está ao redor. Eu redijo em português e essa é a minha língua materna, que me afeta, que me convoca, que me anima a fazer como o escritor Guimarães Rosa, inventar termos na língua”, disse o autor.

A escrita não é central na vida de Krenak, segundo o próprio escritor. Ele entende que a comunicação se faz em variadas linguagens. “Eu creio que eu tenha resistido muito à ideia da escrita como um lugar para depositar a memória e os saberes. Até quase os meus 20 anos, não dei atenção à escrita como uma técnica que eu devesse integrar. Eu considero que as linguagens são muitas, dançar é uma linguagem, cantar é uma linguagem e a escrita foi muito privilegiada pelo ocidente e foi, durante muito tempo, utilizada como uma arma para a dominação. A maioria dos povos que ficou excluída, historicamente, do arranjo civilizatório, teve negada a capacidade de comunicação porque só a escrita era admitida. A escrita é a língua dos tribunais, e os poetas querem que ela seja a língua da poesia, da convivência e da solidariedade, mas, definitivamente, a letra, durante muito tempo, foi a arma dos tribunais. Isso me fez desconfiar da letra. Mas eu entendo que, no contexto contemporâneo, os povos originários devem escrever para se defender do genocídio continuado”, afirmou Krenak.

A humanidade é um dos pontos centrais da fala de Ailton Krenak. E a ideia de vasculhar o universo é, para ele, um equívoco. “Eu acho que a gente podia invocar o nosso querido [Carlos] Drummond, que é meu escudo invisível. Ele diz que depois de toda especulação que fizemos, inclusive essa do Carl Sagan, a da poeira de estrelas, o homem vai ter que fazer uma dangeroussissima viagem para dentro de si mesmo, e talvez seja a viagem mais maravilhosa pela sua extensão. O taoísmo [doutrina mística e filosófica, formulada a.C. por Lao Tse, que enfatiza a integração do ser humano à realidade cósmica primordial] diz que no grão de areia está contido todo o universo. Então, quando fizermos a viagem para dentro de nós, estaremos entrando no amplo universo”, disse o escritor.

O programa Letra em Cena on-line tem previsão de retomar suas atividades em março de 2021. Fique atento à agenda do Centro Cultural Unimed-BH Minas.

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