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Menos é mais

A poesia de Manoel de Barros é uma alucinação de olhos abertos, afirma Fabrício Carpinejar

O programa literário do Centro Cultural Unimed-BH Minas, o Letra em Cena. Como ler..., na sua versão on-line, trouxe a análise da obra de Manoel de Barros (1916-2014) sob o olhar do jornalista e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar. Exibido em setembro, o programa contou com a declamação do poema “O menino que carregava água na peneira”, de Manoel de Barros, e da crônica “Bem-casado”, de Carpinejar, feita pelo ator Odilon Esteves. Completando o encontro, a roteirista e escritora Adriana Falcão deu um emocionante depoimento sobre sua relação de afeto com a obra do poeta mato-grossense. A sessão pode ser vista no canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube.

 

 

A palavra afeto foi bastante usada para definir a obra de Manoel. “O segredo do Manoel é a afetividade, o quanto a poesia é  instrumento para você se aceitar, se amar, se querer bem. Tudo o que não é simétrico é belo. Saímos daquele mundo da finalização, da aparência, para o mundo da imperfeição comovente. Se você tem um defeito, significa que você é honesto. É a sabedoria do defeito”, explicou Carpinejar. Confira mais reflexões de Carpinejar sobre o poeta Manoel de Barros.

Manoel, o hippie

Acho que o Manoel de Barros bebeu no ideário hippie, da contrarrevolução. Nós temos uma ideia da aparência do Manoel de Barros como um matuto, um rústico, mas ele era absolutamente refinado. Buscava a liberdade a partir do essencial. O pouco é essencial. Se importava com os restos. Menos é mais.

Parentescos com outros poetas

Manoel tem parentesco com o espaço afetivo e íntimo de Drummond. O Drummond tem um verso que diz “A mesa era maior que a casa”. Manoel de Barros coloca que “o quintal é maior do que o mundo”. É um espaço do sonho, do devaneio, que vem inclusive com a falta de espaço e de lugar.

Eu o comparo a João Cabral de Melo Neto, que tem o rótulo da poesia cerebral, e Manoel de Barros tem o rótulo da poesia intuitiva. Mas ambos se alimentam do mesmo exercício, do mesmo método exaustivo de observação. Manoel de Barros trabalhava muito um texto, riscava muito. Os poemas dele têm andamento de contos. Ele não tinha preocupação com a rima ou com a musicalidade, ele queria a narrativa. Ele usou a poesia como se fosse um cinema pré-histórico.

Estilo de Manoel

Manoel atravessou todo o século XX. Ele escreveu durante 50 anos sem ser conhecido, meio século de ostracismo. Manoel publicava tiragens pequenas para poucos experts. Ele é um híbrido entre o Modernismo e a Geração de 45, mas só foi reconhecido nos anos 1980. Manoel quebra as regras gramaticais, experimenta, provoca uma reação inédita no leitor. Ele fazia isso porque tinha conhecimento. Era devoto do Câmara Cascudo (historiador e poeta potiguar – 1898 – 1986) e adorava “Os Sermões”, do padre Antônio Vieira.

Manoel de Barros não é apenas um poeta, é um teórico da poesia, ele criou a teologia do traste, tudo que não serve para uma função, serve para a poesia. Um sofá terá muito mais serventia para o poeta quando ele for abandonado, quando ele estiver gosmento de besouros. Ele encontra no abandono, no despojamento, a maior exaltação da existência. Ou seja, contra a usura, contra o consumo, contra o oportunismo, contra os interesses, olha apenas pelo efeito estético, pela verdade.

Sentido da poesia de Manoel

Ele não se importa com o acúmulo emocional do poeta, com o arremate, para arrancar o riso ou a lágrima. Ele gosta de colocar um grande verso no meio do texto, perdido no poema. Ele gosta de esconder seus grandes versos. Manoel não é didático colocando o melhor no final.

A sensação é que ele fez uma única grande obra. Não há livros isolados, ele trabalha sobre alguns temas, mas sempre com a mesma atmosfera que é o ‘criançamento’ das palavras. Ele quer a língua na sua mais alta sinceridade, quando erramos a língua acertamos a alma. Ele quer reproduzir o raciocínio de uma criança aprendendo a falar e a escrever.

Manoel criou um universo novo e valoriza algo que julgo fundamental: se colocar no lugar do outro. O que é um defeito, para ele é virtude. Ele humaniza a natureza, passa qualidades humanas para as rãs, pássaros e rios. E ele passa a ser uma espécie de bicho. Manoel tem o interesse de se misturar, não tem um protagonista, uma figura de centro. Ele cria dúvidas, não tem certezas, e quando apresenta certezas é para criar mais dúvidas.

Como ler Manoel

Não se pode ter uma leitura realista. Para ler Manoel, você tem que ter o olhar de criança, precisa libertar o seu condicionamento, entrar no mundo do faz de conta. Quem é realista vai ficar perdido, porque a poesia de Manoel de Barros para essa pessoa é um labirinto. Tem que assinar um pacto com a poesia dele. A poesia de Manoel é uma alucinação de olhos abertos.

A poesia dele é um convite para o leitor assumir a sua voz poética. As pessoas vão te amar pelo que você errou na vida. É uma anistia, porque na poesia de Manoel não existe melhor ou pior, ela não exclui.  Não é necessário entender, porque não se entende, você sente. A poesia de Manoel traz o poder transformador da contemplação. Se você é capaz de contemplar durante uma hora, você se transforma naquilo que está enxergando. Você se mistura e evolui.

A próxima sessão do Letra em Cena on-line será no dia 19 de outubro e terá a obra de Carolina de Jesus (1914 - 1977) analisada por Conceição Evaristo.

 

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