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Pode um subalterno falar?

Conceição Evaristo afirma que Carolina Maria de Jesus pode

O programa literário do Centro Cultural Unimed-BH Minas, o Letra em Cena. Como ler..., na sua versão on-line, trouxe a análise da obra de Carolina de Jesus (1914-1977) sob o olhar da linguista e escritora Conceição Evaristo. Exibido em outubro, o programa, que conta com amis duas mil visualizações, teve a declamação de trechos da obra de Carolina pelo poeta Ricardo Aleixo, a participação de Vera Eunice, filha de Carolina e de Tom Farias, biógrafo da escritora. A sessão pode ser vista no canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube.

 

Confira abaixo alguns trechos da sessão.

Como conheceu Carolina

A primeira vez que li Carolina foi nos anos 1960. Eu fazia parte do movimento Juventude Operária Católica (JOC), e naquele momento era a origem da Teologia da Libertação. Havia uma ala da igreja que desejava ser a igreja dos pobres, não só no Brasil, mas na América Latina. Ela estava atenta às vozes do povo, dos pobres e dos operários. E eu leio Carolina por meio do JOC. E foi um impacto muito grande, porque o que Carolina relatava no “Quarto de despejo”, era alguma coisa que a gente conhecia de perto. Toda a experiência de catar papeis na rua, minha mãe e eu conhecíamos isso. A gente morava na favela do [bairro] Cruzeiro, do “Pendura a saia”, então, ler Carolina era ler aquilo que nós escreveríamos.

 

A característica da escrita de Carolina

O texto escrito de próprio punho é de Carolina de Jesus. Ela inaugura, o que Spivak [é uma crítica e teórica indiana], pergunta: ‘pode um subalterno falar?’. O lugar de enunciação de Carolina é o lugar da vivência dela. Ela é personagem e objeto da própria escrita.

 

Sobre escrevivências...

Quando eu penso em escrevivência, não é somente por causa da obra de Carolina Maria de Jesus, o texto dela exemplifica muito bem o que é a escrevivência. É essa escrita que parte de uma vivência, que no caso estou falando de vivências de mulheres negras e pobres. Não que outra autoria não produza uma escrevivência, eu poderia dizer que vários autores que produzem uma escrevivência. Mas, há um aspecto, que é interessante, de ser uma vicência do coletivo, mesmo escrita em primeira pessoa. Não é um texto que esgota no sujeito da escrita. É um texto que abarca a vivência do coletivo.

 

Força do texto de Carolina

Quantas mais pessoas se apropriarem do texto dela, divergirem dela, isso mostra a potencialidade do texto de Carolina. É um texto que oferecer várias leituras. Carolina é do mundo.

Sobre a escrita “errada”

Nós não lemos Carolina a partir do conceito de erro, porque se você já pega um texto e lê a partir do conceito de erro, já vai encontrar ali uma série de falhas para poder mudar. Então, nós não trabalhamos com o conceito de erro. Mas, com o conceito das várias formas do registro da língua, inclusive formas que vão variar de acordo com a inserção do conceito no espaço social. O que a gente não quis fazer foi o juízo de valor, porque é muito arbitrário. A gramática é uma convenção, a ortografia é uma convenção. E quem são os sujeitos que fazem essa convenção? São os sujeitos pertencentes às culturas hegemônicas. Elas que determinam o que é o português culto e o popular.

 

Carolina, essencial

No momento que a gente fala de um Brasil plural, diverso e multicultural, ler Carolina hoje é ter a percepção de um Brasil que não é uno, e de muitas vozes. Ler Carolina hoje é entender, inclusive, o Brasil de hoje. O texto de Carolina vai dando percepção de como determinados vícios da política brasileira são perenes. Acho que Carolina te possibilita fazer uma leitura da sociedade brasileira e a partir, não quero falar dos subalternizados, dos dominados, mas fazer uma leitura, talvez, a partir daqueles que nunca foram acreditados como pessoas capazes de fazer uma análise da sociedade brasileira. Então, eu acho que é uma outra análise do Brasil. É perceber um Brasil que talvez nunca tenha sido bastante observado, camuflado, e que Carolina mostra.

Carolina tem potência quando fala de uma política dos anos 1960, e aí você vê que essa política simplesmente afinou determinados utensílios, mas continua a mesma. Ela faz uma análise do Brasil, faz uma análise dos políticos e do próprio povo.

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