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Ele existia escrevendo...

Martha Medeiros fala, no Letra em Cena on-line, sobre a vida e a obra de Caio Fernando Abreu

A sessão de maio do programa literário do Minas Tênis Clube, “Letra em Cena. Como ler...”, na última terça-feira (11/5), em versão on-line, teve a participação da escritora, cronista e aforista Martha Medeiros, que analisou a obra do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996). No canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube, Martha Medeiros foi entrevistada pelo curador do “Letra em Cena”, José Eduardo Gonçalves. Na ocasião, ela mostrou cartas que trocou com Caio Fernando, cuja obra é marcada pela linguagem fluida e coloquial, abordando temas de sua época combinados à angústia e ao medo relevante. O programa teve a leitura da crônica “Pequenas epifanias”, feita pelo ator Odilon Esteves, e os depoimentos de Luciano Alabarse, diretor de teatro e ex-secretário de cultura de Porto Alegre, e do jornalista Luiz Fernando Emediato. A jornalista e escritora Leila Ferreira, em homenagem a Martha Medeiros, leu a crônica da autora “Dentro de um abraço”. Veja aqui.

 

 

A cronista e autora afirma que sempre foi muito fã da obra de Caio e quando o conheceu estava muito nervosa. “Eu havia lançado meu primeiro livro de poemas, o Strip-tease (1985), ele gostou e me convidou para almoçar na casa dele. Eu cheguei no apartamento do Caio muito nervosa. Imagina só, era como conhecer um beatle, foi uma tarde magnifica. Ele muito cool, um príncipe”, lembra a escritora.

Confira mais trechos da entrevista de Martha Medeiros no Letra em Cena on-line.

O encontro com a obra de Caio

Eu tenho a impressão que comecei a ler o Caio numa revista que se chamava Pop. Essa publicação era a bíblia dos jovens e o Caio foi redator dessa revista que eu colecionava as edições. O texto dele começou a chamar minha atenção. Eu achava incrível que um cara que era de fato pop, tivesse um texto tão profundo. Uma de suas grandes características, né? Ser pop e tão profundo ao mesmo tempo. Logo em seguida eu descubro o livro “Morangos Mofados”, de 1982. Este foi um ano muito difícil na minha vida, eu estava encerrando o meu primeiro grande amor. Eu era uma menina de 21, 22, sei lá... vinte e poucos anos, e o Caio me consolou, me fez entender as coisas que eu sentia, de ver que aquele desespero não era único e sim universal. Então ali, já houve uma liga impressionante com a obra dele.

Conselhos de Caio

Caio escreveu essa carta me incentivando a manter o título do meu livro de “Madame mim”, ele adorava esse título. Enfim, eu não publiquei com esse nome, fiz outro título. É muito interessante a gente ter essa intimidade do escritor, de como é que funciona, como é que ele pensa um título, as dúvidas que ele tem. Que o Caio tinha e todos nós temos, porque nunca estamos totalmente seguros em relação ao que vamos lançar. E ele dá dicas também, de ler Adélia Prado. Sempre tem uma música, nessa carta ele me diz para ouvir Suzanne Vega, que ele estava apaixonado, e pediu para escutar Nara Leão. Esse é o Caio, né? Sempre dando muitas referências e criando um cenário para o texto dele. Fosse um conto ou uma simples carta.

A preferência de Martha

Eu gosto de tudo. Tenho menos familiaridade com o romance, cheguei a ler “Onde andará Dulce Veiga?” (1990). Mas eu gosto mais dos contos e adoro as cartas. Essa coisa mais íntima, que na verdade ele escreve para uma pessoa, e não imagina que aquilo seria publicado. E ao mesmo tempo, ali, ele extrai tanta humanidade, é tão transparente, e não deixa de ser literatura, porque as cartas do Caio são muito bem escritas, tem toda aquela elegância e humor. Ele consegue mostrar toda a sua ambiguidade. Ele é um pouquinho naja, como ele dizia, mas ao mesmo tempo meigo. Ele sempre se preocupou em enfeitar a amargura. Ele dizia: ‘eu posso ser a pessoa mais sozinha do mundo, a solidão em pessoa, mas sempre vai ter um vasinho de flor na janela do meu apartamento’.

A busca de Caio

O que o Caio sempre buscou foi iluminar o escuro. Ele era gótico, formatado no inverno gaúcho, no frio. E eu noto, em vário aspectos da obra dele, o medo da invisibilidade. Ele sempre busca iluminar o que está escuro, não para transformar em algo solar, mas para tirar aquilo da invisibilidade. Porque ele entende que somos metade luz e metade trevas. Isso dá muita identificação com a obra dele, porque desmistifica essa figura feliz e realizada, que não existe. O que ele buscava, pode parecer uma coisa careta, mas sublime, é o amor. Ele não suportava o desamor. Ele queria o amor quase como uma coisa religiosa, não de pai e mãe, mas o romântico. E foi uma busca que ele não conseguiu realizar, como ele desejava.

Próxima sessão

A obra de Jorge Amado será analisada pelo escritor Itamar Vieira Junior, na próxima sessão do programa literário Letra em Cena, em versão on-line, no dia 15 de junho (terça-feira), às 20h, no canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube. Não perca!

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