Notícias

Cultura

Instrumento: voz

Fabiana Cozza encerra o Sarau MTC com aula sobre a força da voz

O encerramento do Sarau Minas Tênis Clube 2020 foi com a entrevista da cantora e compositora paulistana Fabiana Cozza, nessa segunda -feira (19/10). Como reflexo da pandemia de Covid-19, a terceira edição do Sarau MTC teve seu formato adaptado para a internet, com a realização de entrevistas ao vivo com intérpretes de destaque da música brasileira. A live foi transmitida no canal oficial do Minas no YouTube (youtube.com/minastcoficial) e já conta com mais de 300 visualizações. Em conversa com a jornalista e apresentadora Christiane Antuña, Fabiana Cozza fala sobre a importância do canto, a diferença entre cantor e intérprete e seu estudo sobre a voz. A artista é mestra em fonoaudiologia. Confira a entrevista completa no vídeo a seguir:

 

 

Fabiana Cozza lançou, no dia 17 deste mês, em uma live na Casa de Francisca, em São Paulo, o disco “Dos Santos”, em que canta a religião de matriz africana. “Pensei muito no roteiro desse show e a ideia era criar um terreiro artístico. Tudo ali é muito real e eu não queria que a cultura negra surgisse estereotipada, como geralmente aparece, sabe?”, explica a artista. Para ela, cantar é um ato político. “Tem uma entrevista do Bertolt Brecht, dramaturgo alemão, em que perguntaram para ele: ‘em tempos de guerra também cantaremos?’  E ele disse: ‘em tempos de guerra cantaremos sobre esses tempos de guerra’. O que entendo é que em tempos, por exemplo, de racismo estrutural, cantaremos sobre essas questões”, diz Fabiana, defendendo a força de seu mais recente trabalho.

Fabiana também é jornalista e exerceu a profissão por sete anos, inclusive no jornalismo esportivo. Decidiu viver de música depois de cobrir a Copa do Mundo de 2002, pelo portal Terra Esportes. “Não foi fácil escolher e, graças a Deus, fui vencendo umas etapas e, aos poucos, entendendo como construir uma carreira. Nem pensava em fazer um disco, sabe? Estudava muito e tive contatos com pessoas do meio musical”, lembra a cantora.

Fabiana é uma artista curiosa e inquieta. Entrou para o mundo da cultura abraçando também outras expressões, como a dança e o teatro, e para ela há uma diferença entre cantar e interpretar a canção. “Eu entendo que o meu caminho é o da intérprete e não o da cantora. Eu faço essa distinção. Nana Caymmi, Elis Regina, Maria Bethânia são cantoras que fazem uma forte construção do gesto vocal e de corporeidade. Elas têm claro o que cantam, têm uma opinião sobre a canção e isso faz diferença”, explica.

A artista afirma, ainda, que é possível entender o trabalho do intérprete por meio da forma em que a música é entoada. “Tem uma coisa que distingue bem o interprete: é quando se escuta uma canção que você não vê a possibilidade, não que não haja, de outra interpretação. Para ‘Atrás da porta’ [de Chico Buarque e Francis Hime] não há outra voz que não seja a da Elis, por exemplo. ‘Conto de areia’ [Toninho Nascimento e Romildo Bastos] é Clara Nunes. Elas são artistas que vão revelando camadas poéticas da canção. Não se preocupam só em executar as notas certas. Os intérpretes se arriscam mais”, observa Fabiana.

Sobre as possibilidades do canto, Fabiana alerta para o respeito à identidade de cada pessoa que vai cantar. “Tem uma coisa que é muito importante da gente pensar. Tudo que uma pessoa busca, quando vai começar uma carreira artística, é encontrar a sua voz”, destaca Fabiana, acrescentando que cada voz tem uma característica única, que não vem só do timbre. “A voz é um fenômeno tão fascinante que deve ser no plural: são vozes de você. Há uma coisa que não pode ser desconsiderada, que é o psiquismo, as nossas emoções, desejos, medos e angústias. Tudo isso faz uma voz que é demasiadamente humana. Ela não pode ser desassociada do corpo. ‘A voz é o músculo da alma’, disse Roy Hart, um diretor de teatro. Acho essa definição bonita”, afirma.

Fabiana entende que a técnica deve sempre se associar à vivência do artista. “Você deve ter orgulho de sua bagagem, do que você é. Isso faz parte de sua sonoridade, camadas de conhecimentos que você vai acumulando. Cantar é um ato de se conhecer. Se todo mundo cantasse a gente estaria tão melhor, sabe? Cantar é um processo respiratório muito forte, quando soltamos o ar ao cantar, soltamos muito mais coisas. Cantar é libertador”, enfatiza Fabiana.

Siga como redes sociais oficiais da cultura de Minas:

Facebook : / mtccultura
Instagram : @mtccultura

 


Esse site armaneza dados (como cookies), o que permite que determinadas funcionalidades (como análises e personalização) funcionem apropriadamente. Clique aqui e saiba mais!