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Verdade na linguagem

Milton Hatoum explica a obra de Graciliano Ramos no Letra em Cena on-line

A obra de Graciliano Ramos (1892 – 1953) foi focalizada na última sessão do “Letra em Cena on-line”, transmitida na noite dessa terça-feira (10/11), pelo canal oficial do Minas Tênis Clube no YouTube. O escritor manauara Milton Hatoum falou sobre as publicações do alagoano, que é autor de 18 livros, dentre eles duas obras-primas da literatura nacional: “Memórias do cárcere”,  que foi publicado postumamente, em 1935, e aborda o período em que o autor esteve preso por seu envolvimento na intentona comunista de 1935; e “Vidas secas”, de 1938, no qual apresenta ao leitor questões sociais e flagelos da humanidade.  A atriz Bruna kalil Othero interpretou trecho do livro “S. Bernardo”, de 1934. A live soma cerca de 600 visualizações e pode ser assistida aqui.

 

 

Milton Hatoum começou a palestra explicando a importância de Graciliano Ramos em sua vida. “Graciliano foi fundamental na minha juventude e na minha vida. Li dois livros dele no ginásio, ainda em Manaus. É difícil ler uma obra com linguagem rebuscada. Lendo ‘Vidas secas’ e “Infância’, houve uma empatia”, conta o palestrante, que vê nas obras do autor alagoano oportunidades para o leitor expandir seus conhecimentos. “Pelos assuntos que ele aborda, suas obras são leituras fundamentais, que deixam um legado para toda a vida do leitor. Eu devo muito a essa professora que indicou, lá na minha adolescência, ler Graciliano, porque percebi as diferenças fundamentais do país. Eu não sabia nada do sertão, nem havia TV em Manaus. O que prova que a literatura é um instrumento para conhecer a realidade, como disse Antonio Candido (1918 – 2017)”, afirma Hatoum.

Durante a palestra, foi abordada a consonância da obra de Graciliano com as questões do país, e como a linguagem mostra as diferenças nas camadas sociais. “Em ‘Vida secas’, a miséria da situação causa a miséria da linguagem. Fabiano tem dificuldade de expressão. Esse livro tem uma questão fundamental que é a da educação, a miséria física não está separada da miséria intelectual. Isso está muito claro em ‘Vidas secas. Na cena do Soldado Amarelo, por exemplo, está tudo lá, toda a situação, a incapacidade de compreender, de criticar, de votar e de fazer uma leitura política. Mas, mesmo mostrando tanta dor, ‘Vidas secas’ é o único livro de Graciliano que, no final, acena para a esperança”, explica o palestrante.

.Ao falar sobre “Memórias do cárcere”, Hatoum confessa que não é seu livro preferido. “Me incomoda um pouco alguma coisa moralista, sabe? O machismo por exemplo”, observa o escritor, destacando, porém,  sua importância para a literatura nacional. “A coisa política e a brutalidade da vida brasileira está muito bem colocada em ‘Memórias do cárcere’”, afirma.

Segundo Milton Hatoum, a leitura de Graciliano é necessária e as obras do escritor alagoano são indispensáveis na literatura nacional. “Ele se tornou um clássico e, como define Borges [Jorge Luis], clássico é uma obra lida com fervor e misteriosa lealdade. Graciliano é fascinante pela linguagem e pelo estilo. Ele soube combinar o social, com o psicológico e o político. As pessoas ainda são tocadas por seus livros”, diz Hatoum, que aconselha os futuros leitores de Graciliano Ramos: “Eu começaria a ler suas obras por ‘Vida secas’”.

A programação do Centro Cultural Minas Tênis Clube pode ser conferida nos canais digitais do Minas.

 


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