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Rodrigo de Castro

Curador da exposição “Matéria e luz” fala sobre a arte de Amilcar de Castro

O artista Rodrigo de Castro, filho de Amilcar de Castro (1920 – 2002), é o entrevistado desta edição da série “Cultura em pauta”, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube. O Centro Cultural Minas Tênis Clube (CCMTC) tinha programado, para abril deste ano, receber a exposição “Matéria e luz”, que celebra os 100 anos de Amilcar, artista mineiro de Paraisópolis e um dos responsáveis pelo manifesto do movimento artístico intitulado neoconcretismo. Com a pandemia, a mostra foi adiada para setembro próximo.  “Essa exposição tem como fio condutor a sensibilidade criativa de Amilcar de Castro, a partir de um diálogo permanente entre matéria e luz. Independentemente dos materiais e suportes utilizados ao longo de sua extensa obra, o artista estabeleceu uma linguagem em que, se o corte e a dobra caracterizam o processo, o pensamento é desenhado com matéria e luz”, explica Rodrigo.

E, enquanto setembro não vem, o público pode apreciar, na rua da Bahia, em frente ao CCMTC, uma escultura em aço, criada por Amilcar de Castro em 1990, instalada na calçada e a imagem de uma tela gigantesca do artista,  na fachada do prédio. Na entrevista a seguir, Rodrigo de Castro explica a importância de Amilcar de Castro para a história da arte no Brasil.

Qual é a opinião do senhor sobre a iniciativa do Minas de expor obras de Amilcar de Castro na calçada e na fachada do Centro Cultural Minas Tênis Clube, na rua da Bahia?

Deveria ser permanente. Nada mais justo e democrático que a arte ali, na rua, para todos. Foi uma ótima ideia que deveria ser mantida, e o espaço, ocupado por outros artistas”, diz Rodrigo de Castro, que, além de engenheiro, é artista premiado.

Qual é a importância da arte para a sociedade?

Penso que uma sociedade, seja ela qual for, evolui de forma mais positiva quando é capaz de produzir os meios necessários e suficientes para oferecer educação, ciência e cultura a todos. A carência nas mencionadas áreas tem como consequência uma sociedade enfraquecida e despreparada diante da vida e seus desafios. A arte é a manifestação sensível do que o ser humano é capaz de criar a partir dele mesmo, além disso é o fio condutor da história. História do nosso tempo e de todos os tempos. Conviver com a arte modifica o ser humano na sua essência porque o coloca frente a frente com novas possibilidades e caminhos para o pensamento, reflexões e atitudes diante da vida.

Qual é a importância de Amilcar de Castro para arte no Brasil? O senhor pode explicar qual é o diferencial das obras do artista?

Amilcar foi um daqueles que veio para mostrar o novo. Desde Michelângelo, e até antes disso, esculturas eram feitas a partir de um bloco de matéria. O ponto de partida já era tridimensional. E o artista ia então esculpindo, retirando tudo que não pertencia à obra e, ao final do processo, o que restava era a obra pronta e acabada. Amilcar deu um passo atrás e colocou uma dificuldade a mais no processo. No lugar do bloco de matéria, uma chapa plana de ferro. E o ponto de partida já não era mais tridimensional, e então criou uma solução genial. Com dois gestos simples, um de corte e outro de dobra, transforma aquela chapa plana em escultura. Mas a importância de Amilcar de Castro não se restringe à criação de um novo processo para execução de esculturas. O que ele realizou é muito mais que isso. A geometria inteligente e sensível do artista cria, ao dobrar a chapa cortada, espaços vazios que são fatalmente preenchidos de luz. Há uma convergência, um forte encontro de matéria e luz criando a obra no espaço. Arte de pura essência e força que sempre nos surpreende. E quanto mais o tempo passa, maior a grandeza que se desvela de sua obra.

O Centro Cultural Minas Tênis Clube (CCMTC) montará, em setembro, a exposição “Matéria e luz”, sob a sua curadoria, com 50 obras de Amilcar. O que o visitante verá na exposição?

A dimensão da obra de Amilcar de Castro possibilita diversas e diferentes abordagens para o observador da linguagem do artista. Com o objetivo de celebrar e homenagear o centenário de sua vida, com cautela, há que se pensar e escolher o fio condutor que irá filtrar e definir as obras protagonistas da exibição. Claro que o espaço determina os limites físicos possíveis, mas não basta preenchê-lo. Além de um conjunto de obras expostas, o resultado precisa ter um significado e fazer pulsar com clareza e força o pensamento criativo do artista. Cortar e dobrar chapas de aço, gestos simples e geniais porque nunca feitos antes de Amilcar, são imprescindíveis para a história da arte. A chapa de aço deixa o plano e passa a ocupar o espaço. A dobra faz surgir um vazio que é preenchido com a luz. Num gesto firme e rápido a trincha larga desliza sobre a tela, a quantidade de tinta vai acabando. O preto sólido vai se dissolvendo, se transformando em rastros. E por dentro destes rastros vai surgindo a luz. Esta exposição tem como fio condutor a sensibilidade criativa de Amilcar de Castro a partir de um diálogo permanente entre matéria e luz. Independentemente dos materiais e suportes utilizados ao longo de sua extensa obra, o artista estabeleceu uma linguagem que, se o corte e dobra caracterizam o processo, o pensamento é desenhado com matéria e luz.

Qual é o principal legado de Amilcar de Castro para a cultura nacional?

O movimento neoconcreto rompeu com o tradicionalismo que vigorava na arte brasileira até então e criou, com a participação de grandes artistas, entre eles Amilcar, os caminhos para total liberdade. Liberdade para criar, propor e se manifestar, sem receios, vínculos ou crenças em relação ao que até então era valorizado como arte no país. Amilcar seguiu sua longa trajetória e deixou uma obra de vital importância para a história da arte.

 O senhor também é artista. Fale sobre sua trajetória no mundo da arte?

Sou formado em engenharia, trabalhei muitos anos com tecnologia e a pintura, deixada de lado na adolescência, foi devagar e aos poucos absorvendo mais espaço e tempo nos meus dias. Até que isso ficou mais sério nos anos 1980, quando ganhei um prêmio no Salão Nacional de Ribeirão Preto, que abriu algumas portas e possibilidades para ingressar no mercado. De lá para cá muitas coisas aconteceram e, há mais de vinte anos, o ateliê é o meu lugar de trabalho e a pintura o universo onde me realizo. Atualmente estou começando a fazer esculturas e descobrindo novas possibilidades. Arte é uma energia que pulsa e vibra no coração, na mente, como a vida de cada dia.

 

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