“Hoje, quando me perguntam o que faço da vida, digo: ‘Cuido de cultura num Clube que tem alma de cidade’”

Samia Arantes Gomes

44 anos, coordenadora de programação cultural do Minas

O senhor está completando 90 anos, e eu, quase 20 de casa. Já dá pra dizer que temos uma relação longa o bastante pra nos tratarmos com sinceridade. Cheguei em 2007, meio perdida e curiosa, sem imaginar que aquele seria o início de uma história que ainda estaria sendo escrita tanto tempo depois.

Comecei na secretaria, depois me infiltrei na Cultura; e não foi amor à primeira vista. Eu era jovem, cheia de vontade e de medo na mesma medida. Passei bons anos tentando entender onde me encaixava nesse mundo de ginásio, piscina, palco e corredor.

Depois de um tempo de desafios e aprendizados, vim parar na Biblioteca. E, por ironia do destino, quanto mais mergulhava nos livros, mais me via espalhada por outros cantos: Teatro, Galerias, Centro de Memória, Cinema, Café, Salas Multimeios. Aí o senhor resolveu simplificar: “Pronto, Samia, coordenadora de Programação Cultural.” Nome bonito pra quem não cabe numa sala só.

Mas, cá entre nós, nem sempre foi fácil. Já me senti cansada, sobrecarregada, com vontade de jogar tudo pro alto. Teve fase em que o amor pelo trabalho virou rotina, e a rotina ameaçou engolir o amor. Só que o senhor tem esse dom irritante de me lembrar, no dia seguinte, por que vale a pena ficar. É quando vejo um teatro lotado, uma criança encantada na contação de histórias, uma exposição pronta depois de meses de empenho e noites sem dormir. É quando um artista me agradece pelo cuidado ou quando vejo meu filho, que cresceu aqui dentro, olhando pra tudo isso como quem reconhece um lar.

O senhor é cheio de medalhas e memórias, mas o que mais me impressiona é essa capacidade de recomeçar. A cada novo projeto, o senhor renasce e eu, de algum jeito, renasço junto.

Hoje, quando me perguntam o que faço da vida, digo: “Cuido de cultura num Clube que tem alma de cidade.” E pode se orgulhar: foi dentro das suas paredes que me tornei quem sou.

Parabéns pelos 90. E obrigada por me deixar fazer parte dessa história. Peguei o bonde andando, mas, do jeito que as coisas andam, acho que vou sair daqui de carro voador.